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Romero Britto e a memória gráfica da infância

  • 29 de jul.
  • 4 min de leitura

Poucos artistas brasileiros contemporâneos suscitam opiniões tão antagônicas quanto Romero Britto. Sua obra divide públicos, provoca críticas contundentes e, ao mesmo tempo, alcança um sucesso comercial raríssimo na história da arte brasileira. Para muitos, esse êxito constitui justamente a razão de sua rejeição. Quanto mais suas imagens conquistam espaços, galerias, produtos e coleções particulares, maior parece ser o desconforto de parte da crítica especializada. Como se a popularidade fosse, por si só, um argumento contrário ao mérito artístico.

Entretanto, limitar a discussão a esse antagonismo significa permanecer na superfície do problema. Dizer que Romero Britto vende porque utiliza cores vibrantes é uma explicação insuficiente. Da mesma forma, atribuir sua aceitação apenas ao mercado significa ignorar que nenhum artista permanece durante décadas mobilizando milhões de pessoas sem que exista, por trás de sua linguagem, um mecanismo estético de enorme eficiência. É justamente esse mecanismo que interessa compreender.

Este ensaio parte de uma hipótese diferente daquelas normalmente apresentadas. Não pretende discutir se Romero Britto pertence à Pop Art, se dialoga com o cubismo ou se sua pintura possui maior ou menor refinamento técnico. A questão é outra. Talvez uma das razões de sua extraordinária comunicação com o público resida na capacidade de ativar aquilo que chamarei de memória gráfica da infância. Sob essa perspectiva, o Romantismo deixa de ser compreendido como um movimento histórico rigidamente delimitado pelo século XIX e passa a ser entendido como uma sensibilidade que permanece viva sempre que a arte conduz o homem de volta a um território de refúgio afetivo.

Entre os inúmeros traços do Romantismo, nenhum talvez seja tão persistente quanto o escapismo. Longe de representar apenas uma fuga da realidade, o escapismo romântico constitui uma tentativa de reencontrar um lugar onde a existência recupere certa integridade perdida. Para alguns românticos, esse lugar encontrava-se na natureza; para outros, no passado medieval, no exótico ou na imaginação. O que proponho é que, na produção de Romero Britto, esse retorno acontece por outro caminho: a infância.

Não a infância como tema, mas como linguagem.

Toda criança aprende, muito cedo, um pequeno vocabulário visual. Antes de compreender perspectiva, proporção ou anatomia, ela aprende a desenhar uma casa de telhado triangular, um sol cercado por raios, uma flor de cinco pétalas, um peixe formado por duas curvas, um coração, um gato, uma árvore, uma borboleta. Esses desenhos atravessam gerações quase sem sofrer alterações. São ensinados por professores, reproduzidos nas cartilhas escolares, copiados dos colegas e repetidos inúmeras vezes até se transformarem em uma espécie de alfabeto gráfico universal.

Poucos percebem a força cultural desse repertório.

Esses primeiros desenhos permanecem silenciosamente armazenados na memória. Mesmo quando nos tornamos adultos e jamais voltamos a desenhá-los, continuamos reconhecendo-os instantaneamente. Eles pertencem menos à técnica do desenho do que à formação da sensibilidade.

É justamente nesse ponto que a obra de Romero Britto revela sua singularidade.

Suas imagens raramente são complexas. Elas recorrem exatamente aos elementos que habitam essa memória gráfica coletiva: flores, gatos, cachorros, peixes, corações, pássaros, árvores, rostos simplificados. Não se trata de pobreza formal, mas de uma escolha consciente por signos imediatamente reconhecíveis. Antes mesmo que o observador analise a composição, já experimenta uma sensação de familiaridade. A pintura não lhe apresenta um objeto desconhecido; devolve-lhe uma imagem que sempre esteve guardada em algum lugar de sua infância.

Talvez seja essa a verdadeira potência comunicativa de Romero Britto.

Quando olhamos uma fotografia de um gato, reconhecemos um animal. Quando olhamos um gato pintado por Britto, frequentemente reconhecemos algo diferente: lembramo-nos do gato que desenhávamos na escola. A experiência estética desloca-se da observação para a memória. A pintura deixa de representar apenas o mundo exterior e passa a representar um fragmento da nossa própria história visual.

É nesse sentido que o Romantismo oferece uma chave de leitura extremamente fecunda.

A nostalgia romântica nunca foi apenas saudade do passado; foi também o desejo de reencontrar um estado de espírito anterior às rupturas da vida adulta. Em Romero Britto, esse reencontro não acontece por meio de paisagens melancólicas nem de cenas históricas. Ele ocorre através dos primeiros signos gráficos que aprendemos a produzir quando ainda descobríamos o mundo com espanto.

As cores vibrantes cumprem, evidentemente, um papel importante. Elas ampliam a vitalidade da composição e capturam imediatamente o olhar. Os contornos negros espessos organizam o espaço, conferem ritmo e tornam cada figura facilmente identificável. Contudo, nenhum desses recursos, isoladamente, explica a força de sua linguagem. As cores seduzem; os contornos organizam; mas é a memória que estabelece a ligação emocional entre a obra e o observador.

Talvez por isso milhões de pessoas se reconheçam em suas pinturas, enquanto parte da crítica insiste em enxergar apenas superficialidade. O êxito comercial de Romero Britto dificilmente pode ser explicado apenas pelo mercado. O mercado vende aquilo que encontra ressonância no imaginário coletivo. E poucas coisas permanecem tão profundamente inscritas nesse imaginário quanto as imagens que aprendemos a desenhar durante a infância.

Essa constatação conduz a uma hipótese mais ampla.

Talvez exista uma estética fundada na memória gráfica da infância. Uma estética construída não sobre a invenção permanente de novas formas, mas sobre a reativação de signos elementares que permanecem vivos na experiência humana. Se essa hipótese estiver correta, Romero Britto deixa de ser apenas um artista de enorme sucesso comercial para tornar-se um dos exemplos mais expressivos de como a arte pode transformar lembranças visuais em experiências afetivas compartilhadas.

Pode-se admirar sua obra ou rejeitá-la. Isso pertence ao campo do gosto. O que parece mais difícil é negar sua extraordinária capacidade de comunicação.


No fundo, Romero Britto nos lembra de algo que a própria história da arte, por vezes, esquece: antes de aprendermos a contemplar grandes obras, aprendemos a desenhar um peixe, uma flor, um coração e um sol. Talvez seja justamente nesse território aparentemente simples, onde a memória ainda conserva intacto o primeiro gesto criador da infância, que sua pintura encontra a razão mais profunda de existir.

 
 
 

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