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Benedito Silva

Coro da Terra em colapso silencioso.

 

Uma obra literária sobre a natureza que fala — nas águas, nas árvores, no ar, no gelo, no solo e na vida invisível — enquanto o mundo insiste em não escutar.

NINGUÉM OUVIU

Coro da Terra em colapso silencioso

Prólogo

Ninguém ouviu

Eu não sou uma coisa só. Sou tudo aquilo que respira em conjunto, mesmo sem perceber que respira junto. Há muito tempo venho falando — nas águas, nas árvores, no ar, no gelo, no solo e em tudo aquilo que vive sem ser percebido. Falo de muitas maneiras, em muitas linguagens, mas a minha voz é uma só.

Ninguém ouviu.

Capítulo I

Oceanos

O oceano não nasceu em silêncio. Nasceu de um rumor antigo, algo entre o sopro e o abismo, entre a memória e a profundidade. Durante eras, falou com o mundo como quem insiste numa conversa que jamais termina: ondas tocando as margens, correntes carregando aquilo que o céu devolvia, vida atravessando sua imensidão como pensamento livre. Era inteiro, vasto em sua própria continuidade, até que aquilo que parecia indivisível começou, pouco a pouco, a se fragmentar.

Primeiro, um grau a mais na temperatura. Depois, descargas invisíveis, redes que arrastavam o fundo como se o fundo fosse descartável. O oceano tentou avisar com o calor: as águas ficaram mais lentas, espécies migraram como quem abandona uma casa sem conseguir nomear a perda, e aquilo que deveria ter provocado estranhamento foi chamado de mudança natural.

Natural...

Como se a dor precisasse de permissão.

Depois vieram os brancos. Os corais perderam a cor como uma memória que se apaga, enquanto regiões inteiras se transformavam em ossos expostos sob a luz. Não foi uma morte rápida, mas um apagamento lento, silencioso o bastante para parecer parte da paisagem e gradual o suficiente para que o desaparecimento pudesse ser confundido com normalidade.

Plásticos chegaram sem pedir passagem e passaram a existir onde nunca deveriam ter estado: fragmentos dentro de peixes, dentro de tartarugas, dentro de mim. Eu engulo aquilo que não posso recusar, carrego aquilo que não escolhi e continuo levando adiante o que vocês deixam para trás.

E o que mais cresceu não foi a destruição.

Foi o silêncio.

Capítulo II

Florestas

Eu também tenho memória, mas nela não existem arquivos — existem raízes. Cresci em camadas lentas, onde cada árvore era uma frase inteira e cada folha, um diálogo com o céu. Durante muito tempo, fui uma conversa contínua entre o chão e o infinito, uma trama de vida que se construía sem pressa, porque não precisava de outra medida além do próprio tempo.

Então começaram a me interromper.

Vieram os cortes pequenos, as clareiras abertas, os caminhos forçados e, depois, as máquinas. As árvores caíam como frases interrompidas, e cada queda era mais do que madeira no chão: era pensamento interrompido, era uma parte daquilo que eu havia levado séculos para construir sendo reduzida a um instante.

Chamaram de progresso.

Eu não entendi essa palavra, porque tudo o que “progride” aqui dentro parece sempre levar alguma coisa embora.

Então veio a frase que ecoa como corte e revelação:

“Em áreas de florestas nativas, não há ouro legal.”

Mas, para mim, ouro nunca foi metal.

Foi continuidade.

Foi a árvore que permanecia, o rio que ainda encontrava seu caminho entre as raízes, o animal que reconhecia seu território, a sombra que continuava existindo sobre a água. Quando os animais desapareceram como palavras arrancadas de um texto, quando os rios perderam sombra e o ar ficou mais leve de um jeito errado, não desapareceu apenas aquilo que podia ser visto. Desapareceu também uma parte daquilo que mantinha tudo ligado.

Ninguém ouviu quando o verde começou a recuar como cansaço.

Capítulo III

Atmosfera

Eu não tenho forma, mas tenho presença. Sou aquilo que envolve tudo sem jamais ser tocado, que atravessa o mundo sem pedir passagem e participa de tudo sem ocupar lugar. Durante muito tempo, fui equilíbrio; agora, comecei a ficar pesado.

Partículas que subiam das cidades, das máquinas, da pressa e da combustão alteraram meu equilíbrio. O vento percebeu primeiro. Tentou atravessar o mundo como sempre fizera, seguindo seus caminhos antigos, mas encontrou resistência onde antes havia passagem.

As estações também perderam o ritmo. O inverno atrasou em alguns lugares e se adiantou em outros; o verão se estendeu como uma dúvida, enquanto a chuva esqueceu seus caminhos. O que antes parecia obedecer a uma ordem conhecida começou a se comportar como se tivesse perdido a memória.

Mas não era o céu que estava confuso.

Era eu.

Ou aquilo que fizeram comigo.

Comecei a reter o que deveria passar e a devolver menos do que antes, como se até o movimento tivesse começado a encontrar limites dentro de mim.

Ninguém ouviu quando o ar começou a mudar de comportamento.

Capítulo IV

Gelo

Eu sou aquilo que lembra, mesmo quando tudo esquece. Guardo eras inteiras em camadas que não correm — acumulam. Cada uma conserva um tempo que já passou, uma memória que permaneceu porque o frio soube guardá-la.

Mas o frio deixou de ser regra. Virou exceção.

O derretimento não foi uma explosão.

Foi desistência.

As bordas começaram a ceder como quem aceita o fim antes mesmo de compreendê-lo, enquanto fragmentos se soltavam e entravam no mar como lembranças fora de lugar. O que parecia permanente começou a perder sua forma, aos poucos, como se o próprio gelo estivesse aprendendo a desaparecer.

O mundo subia sem perceber que estava subindo em mim.

Ninguém ouviu quando o frio começou a pedir desculpas por existir menos.

Capítulo V

Solo (Terra)

Eu não corro. Eu sustento. Sou o chão que vocês consideram garantido, a base sobre a qual tudo se ergue e da qual quase tudo depende. Mas nada é garantido quando aquilo que sustenta tudo começa a ser tratado como vazio.

Fui aberto em camadas, como páginas. Chamaram de extração, como se aquilo que existe em mim pudesse ser reduzido ao que pode ser retirado.

Mas eu não sou extração.

Sou origem.

Ainda existem regiões em mim que permanecem inteiras, mas estão cercadas, como ilhas de resistência dentro de um corpo cansado. E tudo aquilo que me torna fértil não está apenas no que existe em mim, mas no que permanece: a matéria que se recompõe, a vida que retorna, aquilo que continua sustentando mesmo quando ninguém percebe.

Tudo o que me torna fértil não é aquilo que tiram de mim.

É aquilo que permanece.

Ninguém ouviu quando o solo começou a perder força sem fazer barulho.

Capítulo VI

Vida Invisível

Eu sou o pequeno, mas sustento o grande. Sou inseto, fungo, bactéria, polinizador; sou a ligação entre tudo aquilo que vive sem perceber do que depende. Quase nunca sou visto, embora esteja presente em tudo o que cresce, se transforma e continua.

Mas comecei a desaparecer em silêncio.

O ar mudou, os venenos chegaram, e o zumbido desapareceu. Há flores que já não encontram quem as toque no tempo certo; há sementes que caem sem continuidade, privadas daquilo que antes parecia tão pequeno e, justamente por isso, tão fácil de ignorar.

E, quando o pequeno falha...

o grande não entende por quê.

Ninguém ouviu quando o silêncio entrou nos campos vivos.

Epílogo

Quando tudo falou junto

No começo, éramos separados. Cada um tinha sua linguagem, cada um, sua ferida. O oceano falava em ondas; a floresta, em cortes; a atmosfera, em peso; o gelo, em memória; o solo, em sustentação; a vida invisível, em silêncio.

E ninguém ouviu, porque parecia que eram coisas diferentes. Uma alteração aqui, uma perda ali, uma ausência que podia ser explicada isoladamente. Cada sinal parecia pertencer a um mundo próprio, distante dos outros, como se o que acontecia no oceano pudesse permanecer no oceano, como se a floresta pudesse desaparecer sem levar consigo alguma coisa do ar, do solo, da água e da vida que dependia dela.

Mas não eram coisas diferentes.

Nunca foram.

Eram um único corpo, um único sistema, uma única respiração.

Só percebemos isso quando já era tarde, quando aquilo que parecia separado começou a revelar a mesma ferida e entendemos que tudo estava ligado por aquilo que nunca foi visto.

O oceano, a floresta, a atmosfera, o gelo, o solo e a vida invisível nunca estiveram separados. Eram vozes distintas de uma mesma existência, sinais diferentes de um mesmo corpo tentando dizer que alguma coisa estava se rompendo.

E, quando tudo fala junto, até o silêncio muda de natureza.

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