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Menedico
by Benedito Cesar Silva
O extraordinário que habita o comum.
The extraordinary that dwells within the ordinary.
Arte. Literatura. Pensamento.
Art. Literature. Thought.


Afinal, por que a arte contemporânea parece tão difícil?
Poucas expressões provocam tanto desconforto quanto "arte contemporânea". Para muita gente, ela representa um território inacessível, reservado a especialistas capazes de enxergar significados onde o restante das pessoas vê apenas um objeto comum. Não é raro ouvir comentários como: "Isso qualquer um faz." Ou ainda: "Se isso é arte, então eu também sou artista." Essas reações não nascem da ignorância. Nascem de uma mudança profunda na própria ideia de arte. Durante séculos, ap


O paradoxo do filtro de barro: quando o passado oferece respostas ao futuro
Filtrar saberes, preservar essências "Nem tudo o que resiste ao tempo é ultrapassado; algumas coisas resistem justamente porque continuam essenciais." Há épocas em que a humanidade parece avançar tão rapidamente em direção ao futuro que perde a capacidade de olhar para trás sem preconceitos. Vivemos uma delas. A velocidade das transformações tecnológicas, a sucessão incessante de inovações e a lógica do consumo permanente consolidaram uma percepção quase intuitiva de que tud


A árvore que guardava infâncias
Há árvores que oferecem sombra. Outras oferecem frutos. Esta oferece memória. Entre os galhos, dezenas de bonecas permanecem suspensas como se o tempo tivesse decidido interromper um gesto que nunca chegou ao fim. Já não brincam, não dormem nem aguardam o retorno de alguém. Apenas permanecem, enquanto o vento move seus corpos sem jamais lhes devolver a infância. Talvez uma civilização possa ser compreendida pelos objetos que escolhe abandonar. Há utensílios que desaparecem s


A aura
Você já reparou que milhões de pessoas atravessam oceanos para permanecer apenas alguns segundos diante da Mona Lisa? A experiência costuma ser breve. A pintura é menor do que muitos imaginam, fica protegida por um vidro espesso e quase sempre é observada à distância, em meio a uma multidão de turistas. Paradoxalmente, quem deseja conhecer cada detalhe da obra consegue fazê-lo muito melhor em uma fotografia de altíssima resolução. Ainda assim, todos os anos, milhões de pessoa


Onde tudo começou?
Quando pensamos na história da arte, é comum que nossa memória nos conduza aos grandes mestres. Lembramos de Leonardo da Vinci, Michelangelo, Rembrandt, Van Gogh, Picasso ou Tarsila do Amaral. A impressão é a de que a arte começa nos museus, nas galerias ou nas grandes civilizações. No entanto, sua origem é muito mais antiga. Antes das cidades, da escrita e da própria palavra "arte", um ser humano entrou em uma caverna e decidiu desenhar. Talvez seja ali, e não em qualquer ou


O poeta sonhador
Vivemos em uma época que costuma desconfiar dos sonhadores. A palavra "sonho" passou a ser frequentemente associada à ingenuidade, como se imaginar outro mundo fosse um gesto de alienação e não uma das maiores forças transformadoras da humanidade. Exalta-se a eficiência, a produtividade, os resultados imediatos. Sonhar parece, para muitos, uma perda de tempo. Talvez nunca tenha sido tão necessário fazer exatamente o contrário. O poeta não sonha porque ignora a realidade. So


Você é criativo?
Quando perguntamos a alguém se é criativo, a resposta costuma vir acompanhada de uma justificativa. Há quem diga que não sabe desenhar, quem afirme nunca ter escrito um poema ou quem atribua a criatividade a um dom reservado aos artistas. Aos poucos, aprendemos a acreditar que criar é um privilégio de poucos. Talvez o maior equívoco esteja justamente aí. A criatividade não é uma profissão. É uma maneira de olhar para o mundo. Uma criança não pergunta se é criativa antes de


A busca pela perfeição
À primeira vista, Bohemian Rhapsody parece apenas uma cinebiografia sobre Freddie Mercury e a trajetória do Queen. É natural que seja lembrado pelas músicas, pelos conflitos da banda e pela extraordinária recriação do show no Live Aid. No entanto, reduzir o filme a essa dimensão seria ignorar sua principal qualidade. Mais do que narrar a história de um grupo de rock, o filme oferece uma reflexão sobre o processo de criação artística e sobre o caminho, quase sempre longo e inc


Di Cavalcanti esfaqueado
Há imagens que permanecem na memória de um país. Entre elas está a pintura de Di Cavalcanti rasgada durante os atos de invasão às sedes dos Três Poderes, em Brasília, em janeiro de 2023. A faca atravessou a tela como se pudesse atravessar também aquilo que ela representava. Mas existe um equívoco antigo escondido nesse gesto. Confundir a obra com a arte. Uma pintura pode ser cortada. Uma escultura pode ser quebrada. Um livro pode ser queimado. Nenhuma dessas ações, con


As vítimas de seu tempo
Existe uma ironia silenciosa que atravessa a história da arte. Alguns dos nomes que hoje ocupam os maiores museus do mundo passaram a vida inteira esperando por um reconhecimento que jamais chegou. Pintaram, escreveram, compuseram e criaram acreditando que suas obras encontrariam leitores, espectadores ou admiradores. Em muitos casos, morreram sem saber que o futuro lhes reservaria um lugar entre os grandes. Vincent van Gogh talvez seja o exemplo mais conhecido. Durante sua


¿Y el Abaporu?
E o Abaporu? É uma pergunta simples, mas que carrega um desconforto silencioso. Onde está o quadro que talvez melhor represente a identidade artística do Brasil? O Abaporu não pertence ao Estado brasileiro. Sua morada é o Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires (MALBA), na Argentina. Ali está preservado, admirado por milhares de visitantes e reconhecido como uma das obras fundamentais da arte latino-americana. Nada há de ilegítimo nisso. A obra foi adquirida legalme


Romero Britto e a memória gráfica da infância
Poucos artistas brasileiros contemporâneos suscitam opiniões tão antagônicas quanto Romero Britto. Sua obra divide públicos, provoca críticas contundentes e, ao mesmo tempo, alcança um sucesso comercial raríssimo na história da arte brasileira. Para muitos, esse êxito constitui justamente a razão de sua rejeição. Quanto mais suas imagens conquistam espaços, galerias, produtos e coleções particulares, maior parece ser o desconforto de parte da crítica especializada. Como se a
Ensaios
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