Di Cavalcanti esfaqueado
29 de jul.
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Há imagens que permanecem na memória de um país.
Entre elas está a pintura de Di Cavalcanti rasgada durante os atos de invasão às sedes dos Três Poderes, em Brasília, em janeiro de 2023. A faca atravessou a tela como se pudesse atravessar também aquilo que ela representava.
Mas existe um equívoco antigo escondido nesse gesto.
Confundir a obra com a arte.
Uma pintura pode ser cortada.
Uma escultura pode ser quebrada.
Um livro pode ser queimado.
Nenhuma dessas ações, contudo, é capaz de destruir a arte.
Ao longo da história, civilizações incendiaram bibliotecas, demoliram templos, derrubaram monumentos e censuraram artistas. Ainda assim, a arte permaneceu. Ela muda de lugar, muda de linguagem, muda de suporte, mas insiste em sobreviver. Talvez porque nunca tenha habitado apenas a matéria. Antes de ocupar uma tela, uma pedra ou uma página, a arte existe como imaginação humana.
Foi assim nas paredes das cavernas.
Foi assim nos papiros consumidos pelo tempo.
Foi assim nas catedrais destruídas pelas guerras.
Foi assim diante de regimes que proibiram livros, músicas e pinturas.
Sempre que alguém tentou silenciar a arte, acabou produzindo apenas mais um capítulo da própria história da arte.
Há algo de profundamente simbólico no ataque a uma obra artística. Quem ergue uma faca contra uma pintura reconhece, ainda que involuntariamente, o poder que ela possui. Ninguém destrói aquilo que considera completamente irrelevante. O gesto violento revela, paradoxalmente, a força daquilo que pretende negar.
Di Cavalcanti foi ferido.
A arte, não.
Os cortes permanecerão como marcas de um episódio político, mas também poderão ser lidos como testemunhos da resistência da cultura. A tela deixou de contar apenas a história imaginada por seu autor. Passou a carregar também a história de um país que, em determinado momento, voltou sua violência contra seus próprios símbolos.
Talvez seja essa uma das características mais extraordinárias da arte.
Ela transforma até mesmo a agressão em significado.
O que era destruição converte-se em memória.
O que era violência converte-se em documento.
O que era silêncio converte-se em reflexão.
Os artistas sempre souberam fazer isso.
Recolhem fragmentos, reorganizam ruínas e encontram beleza onde parecia existir apenas perda. Cada obra nasce justamente da capacidade humana de atribuir sentido ao mundo, mesmo quando o mundo parece ter perdido o sentido.
Por isso, esfaquear um Di Cavalcanti jamais significará derrotar a arte.
No máximo, significará acrescentar uma nova camada à sua história.
A arte acompanha a humanidade desde muito antes das cidades, das nações e dos governos. Ela atravessou impérios, epidemias, guerras e revoluções. Sobreviveu à censura, ao fanatismo e ao esquecimento. Continuará existindo porque sua matéria-prima nunca foi apenas a tinta, a pedra ou o papel.
Sua verdadeira matéria é a experiência humana.
E enquanto houver alguém capaz de olhar para um mundo ferido e desejar compreendê-lo, haverá arte.
Talvez essa seja sua maior vitória.
Ela pode até ser golpeada.





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