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A árvore que guardava infâncias

  • 30 de jul.
  • 2 min de leitura

Há árvores que oferecem sombra. Outras oferecem frutos. Esta oferece memória. Entre os galhos, dezenas de bonecas permanecem suspensas como se o tempo tivesse decidido interromper um gesto que nunca chegou ao fim. Já não brincam, não dormem nem aguardam o retorno de alguém. Apenas permanecem, enquanto o vento move seus corpos sem jamais lhes devolver a infância.

Talvez uma civilização possa ser compreendida pelos objetos que escolhe abandonar. Há utensílios que desaparecem sem deixar vestígios. Outros, porém, resistem ao descarte porque carregam uma dimensão afetiva que ultrapassa qualquer utilidade. A boneca pertence a esse território. Nunca foi apenas um brinquedo. Foi confidente silenciosa, filha imaginária, companheira de noites insones e presença constante nas primeiras narrativas inventadas por uma criança. Quando envelhece, leva consigo não apenas as marcas do plástico ressecado ou dos cabelos perdidos, mas também o desgaste das lembranças que ajudou a construir.

É por isso que essa árvore provoca estranhamento. Ela transforma um símbolo de crescimento em um arquivo de ausências. Seus galhos sustentam aquilo que a infância deixou para trás, enquanto as folhas continuam nascendo a cada estação e os pequenos corpos artificiais permanecem presos ao mesmo instante. A natureza insiste em renovar-se; as bonecas, ao contrário, acumulam o peso dos anos. Entre ambas estabelece-se um diálogo silencioso: de um lado, a vida que continuamente se reinventa; do outro, a matéria criada pelo homem que envelhece sem jamais desaparecer completamente.

Há ainda uma inversão que torna essa instalação profundamente simbólica. As bonecas foram feitas para ocupar quartos, camas, braços e sonhos. Aqui, entretanto, habitam o céu. Tornaram-se frutos de uma árvore improvável. Não amadurecem nem caem; permanecem suspensas entre a terra e o ar, como se existissem num território onde o tempo deixou de obedecer às regras conhecidas. Talvez resida aí a força da obra. Ela não denuncia apenas o abandono dos brinquedos, mas também a maneira como tratamos a memória.

Guardamos fotografias, cartas e pequenos objetos porque tememos esquecer quem fomos. A memória, porém, nem sempre se recolhe às gavetas. Às vezes, cresce entre galhos, exposta ao sol, à chuva e ao vento. Não exige conservação; basta-lhe resistir. Ao retirar as bonecas do ciclo do consumo e inseri-las no espaço da contemplação, a instalação interrompe a lógica do descarte. Aquilo que parecia destinado ao lixo recupera uma existência inesperada e deixa de ser simples objeto para tornar-se testemunha da infância, da passagem do tempo e, sobretudo, da nossa própria condição humana.

A fotografia preserva esse encontro efêmero entre arte e natureza, mas faz algo ainda mais importante: impede que a instalação termine no instante em que foi contemplada. A imagem prolonga sua existência e amplia suas perguntas. Não sabemos quem pendurou aquelas bonecas, quantas mãos infantis as seguraram antes de chegarem ali ou por quanto tempo permanecerão presas aos galhos. Sabemos apenas que, naquele instante, deixaram de representar crianças para representar a própria fragilidade da memória diante da passagem do tempo.

Talvez seja exatamente esse o destino das grandes obras de arte: transformar aquilo que parecia comum em algo impossível de esquecer. Ao final, compreendemos que aquela árvore nunca guardou apenas bonecas. Guardou infâncias. E, enquanto houver alguém disposto a olhar para elas, nenhuma delas estará completamente perdida.

 
 
 

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