O poeta sonhador
- 29 de jul.
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Vivemos em uma época que costuma desconfiar dos sonhadores. A palavra "sonho" passou a ser frequentemente associada à ingenuidade, como se imaginar outro mundo fosse um gesto de alienação e não uma das maiores forças transformadoras da humanidade. Exalta-se a eficiência, a produtividade, os resultados imediatos. Sonhar parece, para muitos, uma perda de tempo.
Talvez nunca tenha sido tão necessário fazer exatamente o contrário.
O poeta não sonha porque ignora a realidade. Sonha porque a conhece profundamente. É justamente por enxergar um mundo atravessado pela violência, pela intolerância e pela indiferença que ele se recusa a aceitá-lo como definitivo. O sonho não nasce da fuga. Nasce da inconformidade.
Por isso, a poesia nunca foi apenas um exercício estético. Ela é uma forma de resistência.
Quando a linguagem cotidiana se torna pobre para explicar a experiência humana, o poeta inventa novas palavras, novas imagens e novos sentidos. Enquanto muitos descrevem o mundo tal como ele é, o poeta ousa descrevê-lo como ainda pode ser. Essa diferença parece pequena, mas talvez seja uma das maiores revoluções que a arte é capaz de produzir.
O mundo frequentemente se apresenta como um território marcado por disputas, rivalidades e frustrações. Há dias em que a realidade parece perder suas cores e transformar-se em uma sucessão de acontecimentos sem encanto. É justamente nesses momentos que a arte revela sua verdadeira função. Ela não elimina a dor nem apaga as contradições da existência. O que faz é impedir que elas sejam a única narrativa possível. O poeta compreende que toda época produz seus desertos. Alguns são feitos de areia. Outros são feitos de desesperança. Caminhar por eles exige algo que ultrapassa o simples otimismo. Exige imaginação. Afinal, toda transformação começa quando alguém consegue visualizar aquilo que ainda não existe. Talvez seja por isso que a história da humanidade seja também a história de seus sonhadores. Antes de cada descoberta científica, de cada grande obra artística ou de cada avanço social, existiu alguém disposto a acreditar em uma possibilidade que os demais consideravam improvável. Toda criação nasce duas vezes: primeiro na imaginação, depois na realidade.
A poesia preserva justamente essa capacidade de imaginar. Ela colore tempos cinzentos não porque ignore a existência da sombra, mas porque sabe que nenhuma sombra pode ser percebida sem alguma presença de luz. O poeta não pinta um mundo perfeito. Pinta um mundo possível.
É por isso que sua tarefa permanece tão necessária.
Enquanto houver guerras, haverá poemas sobre a paz.
Enquanto houver injustiça, haverá versos sobre a dignidade.
Enquanto houver solidão, alguém continuará escrevendo sobre o amor.
A poesia talvez não tenha o poder de mudar o mundo sozinha. Mas possui algo igualmente importante: a capacidade de impedir que o ser humano se acostume a um mundo sem beleza, sem sensibilidade e sem esperança. No fim, ser poeta talvez não signifique escrever versos.
Signifique recusar a ideia de que a realidade, tal como está, seja a única realidade possível.
É por isso que vale a pena continuar dizendo, mesmo quando tudo parece perder a cor:
Sonha, poeta sonhador.
Porque cada sonho preservado é uma forma silenciosa de resistência.
E toda grande transformação da humanidade começou, um dia, como um sonho que alguém teve a coragem de não abandonar.
Sonha, poeta sonhador.
Quando o mundo perder as cores,pinta.
Quando perder a esperança,escreve.
Quando perder a humanidade,permanece poeta.




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